BOCAS FOLEIRAS

Setembro 26 2008

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Tenho vindo a descrever a minha convivência com a Família Camões Fragoso; falta-me, apenas, faze-lo em relação a meu Padrinho :

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Manuel Fragoso, como já aqui escrevi, nasceu em Montemor-o-Novo; mas, quando chegou a altura de frequentar o Liceu, foi viver para Évora  (em casa de uma senhora que alugava quartos a estudantes e a quem ele, e os outros colegas lá hospedados, se encarregavam de "fazer a vida negra" com as suas diabruras).

Cedo se envolveu na política e acabou por chegar a Governador Civil, naquela Cidade.

Era sobretudo notado pelos seus dotes-oratórios. Conta-se até que, tendo começado a discursar numa varanda, logo se foi juntando uma multidão para o ouvir e, o efeito das suas palavras mobilizou de tal forma os ânimos daquela gente, que os seus companheiros já lhe puchavam frenéticamente pelas mangas do casaco para que moderasse o seu discurso, temendo que este despoletasse uma revolta-popular.

 

Veio em seguida para Lisboa, para representar aquela Região, como Deputado nas Cortes da Nação.

 

Passou, depois, a Chefe da 3ª vara civel do Tribunal da Boa-Hora, onde acabou por se aposentar.

 

Entretanto foi-se dedicando às suas outras três paixões : As viagens, a comida e a escrita.

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Quanto à sua faceta de Viajante, todos os anos programava minuciosamente uma grande  viagem ao estrangeiro, nas suas férias. Começava, com grande antecedência, a consultar roteiros, horários de transportes, preçários de hotéis, etc.; Chegava ao pormenor de nos deixar postais datados, e endereçados à posta restante das Cidades por onde passaria, para ir tendo notícias nosssas. Os seus meios-de transporte favoritos eram o combóio e, sempre que se proporcionava, os navios de cruzeiro.

Dizia, muitas vezes, que as Viagens lhe proporcionavam três prazeres : o prepará-las, o desfrutá-las e o recordá-las.

E como era agradável passar serões a ouvir as suas peripécas de viagens, que tão facilmente encadeava umas nas outras.

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Quanto à sua faceta de Gourmet, adorava a boa culinária, principalmente a francesa, embora fosse bastante frugal. Comprava livros de receitas-francesas e dava-se ao trabalho de traduzi-las, para que a sua cozinheira lhas confecionasse. Percorria as lojas de produtos Gourmet, sempre em busca dos melhores ingredientes. Se no final das suas viagens, lhe sobrava algum dinhero da verba que lhes tinha destinado, regressava sempre por Paris

(sua Cidade preferida), para se deliciar com uma ultima refeição num restaurante em voga.

 

Como tinha sido caçador, adorava pratos de caça (como era deliciosa aquela "terrine de liévre"). Mas não precisava de compra-la nos estabelecimentos pois, na época da caça, todas as semanas nos batia à porta uma senhora, esposa de um caçador, com uma alcofa cheia de lébres, coelhos-bravos, faisões, perdizes, galinholas, etc. (e até nos podíamos dar ao luxo de escolhe-las, pelo comprimento dos esporões). Naquela época o Campo Grande funcionava como uma aldeia : os Merceeiros mandavam-nos os marçanos a casa, para lhes indicarmos os produtos em falta; e, pouco depois, lá regressavam eles, carregados com cabazes aos ombros, a entregar-nos as mercearias; o leite, o pão, etc. eram-nos trazidos, ainda quentes, pelos leiteiros e padeiros; os pitrolinos, traziam-nos petróleo, carvão, azeite, etc. As varinas, com os seus típicos pregõs de "Ó viva da Costa !" traziam o peixe fresco (havia sempre um cesto, com uma comprida corda que chegava até à Rua, onde colocávamos o dinheiro e, elas, o peixe amanhado; pois tudo era feito na base da confiança). Havia, também os aguadeiros e as lavadeiras, que vinham de Caneças, eles com bilhas de barro com agua fresquinha e elas com trouxas de roupa lavada (e como era cheirosa aquela roupa, corada ao sol em cima de arbustos-aromáticos)

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Quanto à sua faceta de Escritor, principalmente teatral, adorava o ambiente dos bastidores e  o convívio com os artistas que representavam as suas peças. Chegou a Vice-Director da Sociedade Portuguesa de Autores tendo negociado, com a imobliária de Nuno Salvação Barreto, a aquisição da actual Sede daquela Cooperativa.

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A sua rotina diária, depois da aposentação, era levantar-se bastante tarde (pois nunca se deitava cedo), fazer a sua higiene, almoçar e ir até à Casa do Alentejo (de que chegou a fazer parte dos Corpos Gerentes) onde se reunia, com os seus amigos alentejanos, à volta de uma mesa de bridge. Aproveitava, em seguida o estar na Baixa, para ir ao Chiado procurar as ultimas novidades nas Livrarias, ou no Jerónimo Martins e nas melhores Charcutarias.

Regressava a casa para jantar, mas logo saía para tomar o café com outros amigos, num dos Cafés do Saldanha : ou no do Monumental, ou no Monte Carlo, ou no San Remo (para onde se deslocava a pé, pois adorava palmilhar Avenidas). Regressado a casa, não adormecia sem escrever ou ler um pouco (adorava ler, e tinha uma grande biblioteca).

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Foi com ele que fui, pela primeira vez, visitar o Aeroporto e paquetes de Cruzeiro, à Feira-Popular (a de Palhavã - não voltou a haver outra igual), ao Jardim Zoológico, aos bastidores de Teatros, a Monumentos e Museus, etc. , pois adorava transmitir-me toda a sua Cultura. Nunca poderei esquece-lo.

Numa visita à recentemente inaugurada Ponte de Vila Franca (que, na altura, era uma obra imponente, pois tratava-se da 1ª ponte - e única durante várias décadas- a atravessar o  Tejo na região de Lisboa (que, até então, só podia ser cruzado em fragatas, ou "vapores" ).

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Picareta Escribante

publicado por picareta escribante às 07:37

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